May 19, 2012

 

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Regresso à vida social
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O regresso à vida social é identificado pela maioria dos doentes como uma das fases de maior stress após o internamento. Começa por ser a própria dificuldade em aceitarem as suas alterações físicas resultantes da queimadura, a maior limitação no regresso à vida social. Associado a este factor temos a curiosidade humana de olhar para o que é diferente, com o risco de magoar pela forma como se olha. Também a curiosidade leva muitas vezes a questões que incomodam. Socialmente vivemos numa sociedade de culto do corpo e da beleza, esquecendo muitas vezes valores que se elevam a estes, tais como, olhar para o outro pela pessoa que ele é, pela personalidade que demonstra e não pelo "envólucro", como se de um produto se trata-se.

São então muitas as dificuldades encontradas pelos doentes queimados na sua reintegração social. Reintegração social, porque se trata de uma nova aprendizagem de vivências sob o olhar dos outros, com mais ou menos limitações. Cabe aos profissionais de saúde alertar o doente para as possíveis dificuldades, uma vez que este durante algum tempo se encontra num ambiente protegido, no internamento, em que os olhares que o confrontam são os dos profissionais habituados ao contacto com os mesmos, e o dos familiares e amigos, que os protegem incondicionalmente porque gostam daquela pessoa, pela aquilo que ela é.

Esta reintegração passa pelo regresso ao emprego, ao seio familiar e aos contactos sociais comuns. O regresso ao emprego pode ser dificultado pelo tipo de alterações sofridas, isto é, quanto mais visíveis as áreas lesadas, como por exemplo: as mãos e a face (cartões de visita sociais), mais expostos ficam os doentes a olhares, comentários, questões e até mesmo a alterações profissionais dependendo das funções desempenhadas. Recordo da minha experiência enquanto enfermeira de queimados, doentes que desempenhavam funções de maior exposição em público, com receios e insegurança em se exporem directamente ao olhar dos outros.

Quanto ao regresso à vida pessoal, na criança o confronto com as outras crianças pode ser muito cruel, uma vez que estas são demasiado sinceras nas suas palavras, podendo magoar aquelas que sofreram alterações, o que torna imprescindível o acompanhamento por um adulto e nos casos mais graves de um psicólogo. O adulto que tem uma vida de casal sente também grandes alterações, na sua aceitação e, muitas vezes, na entrega ao outro, escondendo os seus receios e afastando-se. A sexualidade do casal pode sofrer grandes alterações, sobretudo pela própria dificuldade do doente em se aceitar fisicamente, apesar de poder existir também alguma rejeição por parte do outro, uma vez que também ele se tem que adaptar à nova realidade.

As relações sociais entre amigos, vizinhos e conhecidos vão se enfrentando gradualmente, sendo muitas vezes o doente que faz uma selecção de quem realmente pertence ao seu mundo.

Esta etapa da reintegração social deve ser sempre feita com o apoio das pessoas que são próximas ao doente e também por técnicos de saúde, que dispistem situações patológicas de adaptação.

Ao doente queimado: Aceite-se para ser aceite, porque todos nós somos muito mais do que uma "embalagem", que tem que vender pela beleza externa e não pelo produto que contém!

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