Os testemunhos que se seguem foram resultado de entrevistas realizadas em 2006 e de um questionário aplicado em 2008.
"A primeira vez que me vi ao espelho não foi fácil, nada agradável, foi bastante difícil, o não querer ver-me ao espelho, não querer olhar para baixo para ver o meu corpo. A primeira semana foi a mais difícil, o mês em que necessitava de pôr cremes, tinham que ser os meus pais, o meu irmão ou a ex-namorada a fazê-lo. Agora não é muito difícil, não me custa, não tenho dificuldades em tocar, em sentir. Já consigo viver com a situação."
Ricardo, 26 anos, queimadura em Junho de 2005
"Foi uma sensação muito estranha, a 1ª impressão é de não acreditar na imagem que se está a ver, que não é a nossa própria pele, a imagem, o reflexo de algo que não nos pertence... é normal! Depois de ter consciência que o que tou a ver é real, não é um reflexo de nada, sou eu própria, o meu novo eu... surge a aceitação de uma nova pele transformada, menos bonita ou mesmo feia, mas uma pele que me trouxe muita coisa bonita por mais estranho que possa parecer. Nada de bonito exteriormente mas sim interiormente... e essa tem um peso mais importante.

Hoje em dia não me sinto diferente de nada nem ninguém, isto porque continuo a ser a Sónia de sempre, com uma grande alteração. Muito mais rica interiormente porque aprendi muita coisa, passei a dar valor a muita coisa que até aqui não tinha descoberto. Depois de tudo isto vem a parte exterior, a pele, a transformação, as marcas, as cicatrizes, o que nada de belo aparenta mas que com o peso de tudo o que adquiri interiormente, esta parte passa para segundo plano... acaba por ser dominado pelo que nos faz realmente ser feliz na vida: aquilo que somos, o que podemos ser como pessoas!! Sermos nós próprios com o que de melhor temos e olharmos para o mundo com um sorriso por tudo aquilo que somos!"
Sónia, 26 anos, queimadura em Setembro de 2003
"As dificuldades tem sido muitas, primeiro a rejeição e aos poucos a aceitação , não só comigo mas também com os outros. Havia dias que me olhava no espelho e só chorava, a pessoa que aparecia no espelho não era eu, a imagem refletida não me dizia nada.Como já disse, com o tempo vai surgindo traços ,expressões, já olho e digo sou eu."
Carla, 2008